Algarve e os fundos comunitários

2006-07-05 | . - O Algarve vai receber da União Europeia, no âmbito do próximo Quadro Comunitário de Apoio (QCA) quase menos 50 por cento do que recebeu no anterior. Isto é, apenas 256 milhões de euros contra os 479 milhões recebidos entre 2000 e 2006. Uma situação, aliás, previsível face à adesão de novos países e aos critérios definidos para a distribuição dos fundos comunitários, mas que não foi, em nossa opinião, devidamente acautelada. Objectivamente, em função das estatísticas, o Algarve é uma região mais rica que a vizinha Andaluzia e, em termos de Península Ibérica, olhando para o mapa de "Convergência e Competitividade" para 2007-2013 está ao mesmo nível de Múrcia e das Astúrias. Porém, como se sabe, as estatísticas não traduzem a nossa realidade, nua e crua. O Algarve continua pobre porque gera milhões que não ficam na região. Grande número de empresas aqui instaladas ou que aqui operam, principalmente na área do turismo, estão sedeadas noutras cidades, sobretudo em Lisboa e Porto, que são quem efectivamente beneficia com as receitas geradas por algumas contribuições e impostos, como o IVA e o IRC. Pior do que termos passado para o grupo das regiões ricas ("phasing-out") é o facto de este ser um desfecho de há muito anunciado sem que nenhum Governo tenha procurado, até hoje, corrigir a distorsão das estatísticas. O Algarve parte, assim, para o próximo QCA como uma "ilha" em franco desenvolvimento, entalada entre duas regiões deprimidas, o Alentejo e a Andaluzia, num país que, segundo indicadores do Eurostat tem a mais alta taxa de pobreza da Europa e a maior diferença entre ricos e pobres. Duas décadas após a integração europeia e muitos milhões de euros encaixados em fundos comunitários, Portugal continua a ser quase só Lisboa e Porto e o resto paisagem. Mas este Algarve que, sem ficção, continua carente de investimentos estruturantes, pese embora os progressos registados nos últimos anos, impõe, por um lado, independentemente de motivações e "guerras" político-partidárias, um esforço consertado que lhe permita beneficiar de compensações por parte da administração central, através de um incremento do investimento público na região e de um reforço de outros fundos comunitários e de verbas destinadas às autarquias locais e, por outro, uma gestão selectiva e parcimoniosa das verbas disponíveis, através de uma visão metropolitana do Algarve. Não há outro caminho!